12 dias na Chapada Diamantina

Chapada
A Chapada Diamantina, no norte da Bahia, é um dos destinos dos sonhos de muitos viajantes, mas ainda muito pouco divulgado. O espaço reserva cachoeiras de mais de 80 metros de queda, grutas, trilhas (de horas ou dias), vilas tombadas e um pôr-do-sol de tirar o fôlego.

Pesquisei muitos roteiros para não chegar crua na Chapada, mas com tantos dias para organizar acabei ficando perdida e preferi esperar para ver o que aparecia. Roteiros prontos são bons para te dar um panorama geral do que você vai encontrar, mas é preciso criar seus próprios planos também, conversar com a população local e construir sua viagem!

Nesta aventura fomos eu e meu namorado preparados até os pés com o mochilão, sacos de dormir, barraca, isolante e sem nenhuma reserva de hospedagem pré-definida. Ouvi dizer que setembro é um período muito bom para conhecer a Chapada Diamantina, pois não chove muito e há incidência solar nas grutas (até o dia 10 apenas). De quebra rola o Festival de Jazz do Capão, que agita bastante a cidade!

Como chegar à Chapada Diamantina:

Saindo do Rio de Janeiro pegamos um voo para Salvador e de lá um ônibus da Viação Real Expresso até Lençóis (R$64), a cidade porta de entrada da Chapada. Esta linha sai todos os dias, mas tem apenas três horários. Nós pegamos o de 23h para dormir no caminho, pois são 6 horas de viagem. É possível ir direto de avião também. Os voos saem do aeroporto de Salvador, mas apenas às quintas e domingos. Alugar um carro em Salvador também é uma boa opção para montar seus próprios passeios, não ficar à mercê dos preços altos de guias e se locomover com mais facilidade. As diárias variam de R$60 a R$100.

Lençóis – A base mais completa para se hospedar na chapada

O Morro do Pai Inácio é um dos principais cartões postais da Chapda Diamantina
O Morro do Pai Inácio é um dos principais cartões postais da Chapda
A cidade de Lençóis é praticamente onde estão todas as agências e alguns dos principais cartões postais. A aparência é de cidade mineira, mas o astral do lugar é totalmente baiano. Logo quando o ônibus chega na rodoviária, nativos oferecem hospedagem dos mais diversos tipos: camping, hostel, quartos em casas de moradores ou pousadas. Assim, a falta de reserva não foi um problema. Ficamos na casa de uma senhora, o nome era Pensão Diamantina, bem completa e apenas R$25 a diária. Valor igual ao camping mais famoso da cidade, o Lumiar, e a metade do preço do Hostel International. Em custo-benefício foi nossa melhor estadia.
No primeiro dia na cidade conhecemos um guia local que nos ofereceu um pacote com os principais picos próximos (R$100 o guia + o carro e R$ 45 reais para as entradas). Sim, a maior parte das atrações da Chapada ficam ou dentro de uma propriedade privada ou de um parque que cobram entrada. Começamos o dia indo ao Poço do Diabo, onde há um lago enorme para nadar e uma queda bem larga. Foi lá que percebemos que as quedas não estavam tão cheias quanto nas fotos. A região passava por um período de seca, que diminui a grandiosidade das cachoeiras, mas que não tirou a beleza do lugar. De lá conhecemos o Rio Pratinha, um dos poucos lugares que reserva uma água super cristalina (apenas lá e em Águas-Claras), se diferenciando do tom coca-cola que predomina nas cachoeiras da região. Na pratinha há uma pequena gruta para observar, a Gruta Azul, que nesta época do ano recebe incidência solar somente até as 15h e outra que permite flutuar, a Gruta da Pratinha, além do rio que parece uma piscina e se pode passar o dia inteiro tomando banho.
Gruta Azul, localizada dentro da Fazenda Pratinha
Gruta Azul, localizada dentro da Fazenda Pratinha
Em seguida, exploramos a Gruta da Fumacinha, uma caverna de fácil acesso e menor que as conhecidas Torrinha e Lapa Doce, mas que mantém as exóticas formações estalactites e estalagmites. Em toda Chapada já foram mapeadas mais de 130 grutas, mas apenas cinco são liberadas para o turismo. Você se sente dentro de um filme e a emoção vai aumentando quando os espaços vão diminuindo. Cuidado com a cabeça!
No fim do dia, subimos o Morro do Pai Inácio, caminhada de 20-30 minutos, bem leve. A entrada custa R$5 e só é permitido entrar no parque até às 17h, para evitar que os visitantes desçam a noite. O visual é impressionante, de lá você avista grande parte das maiores elevações da região, como as serras, Mucugezinho, Morro do Camelo e o Morrão. Assistir o pôr-do-sol aqui é uma atividade must have na Diamantina.
Fora do circuito central de passeios, Lençóis oferece muitos lugares bacanas para ir sem guia e caminhando. Como o Serrano, que possui diversas bolsões formando piscinas naturais. Seguindo ainda por lá, pega-se uma pequena trilha para chegar a Cachoeira da Primavera, a Cachoeirinha, o Poço Harley e um mirante para o vale, além de diversas vias de escalada. Quem tem boca acha, não dá para se perder. Seguindo no sentido contrário da cidade há um escorrega natural no Ribeirão do Meio e uma trilha um pouco mais pesada para a Cachoeira do Sossego (2h).
Onde comer:
O que não falta na cidade são boas opções para comer. Mas em nosso rolê o lugar que ganhou disparado em sabor e preço justo foi o Burritos y Taquitos. Restaurante pequeno, próximo ao Mercado Cultural, com clima aconchegante e que serve um delicioso tex-mex. O pedido de seis tacos recheados serve bem duas pessoas, você mesmo monta e custa apenas R$20 (Dica: não acredite na suavidade do molho de pimenta “suave”).
Vale do Capão, onde os bixos-grilo encontram seu lugar!
Pôr-do-sol no Riachinho - Capão
Pôr-do-sol no Riachinho – Capão

Uma rua principal de paralelepípedos, nenhum sinal de celular e a nata riponga desprendida. Depois de conhecer o Capão, Lençóis parecerá até cidade grande. O distrito de Caeté-açu, chamado apenas de Capão, reserva visuais alucinantes, como a Cachoeira da Fumaça, o Riachinho, as cachoeiras da Purificação, Angélica e o ponto de partida para o trekking do Vale do Pati.

Para chegar, compramos passagens na rodoviária de Lençóis para Palmeiras (R$5) e de Palmeiras saem vans até o Capão (R$10). Chegando há uma diversidade de lugares para se hospedar. As melhores pousadas ficam distantes para garantir o clima de tranquilidade. Há alguns hostels e pelo menos uns cinco campings, o mais famoso é o do Seu Dai, ex-garimpeiro da Chapada. Nós ficamos no camping da Pousada Sempre Viva (R$10). Espaço bom com muitas árvores para sombrear as barracas, chuveiros elétricos e cozinha comunitária equipada. Lá há também chalés para até quatro pessoas, rústicos, mas bem confortáveis, que nos últimos dias foi nossa rendição (R$25). Descendo a rua dos campings há o Circo-Escola do Capão com atividades o ano todo para adultos e crianças.

Antes de ir para a Chapada, o que mais me diziam era que não podia deixar de ver o pôr-do-sol no Morro do Pai Inácio, mas depois de curtir um pôr-do-sol no Riachinho, esse momento mudou de protagonista. O Riachinho é a praia do Capão. A 5km do centrinho, dá para chegar de carona com os carros que saem em direção a Palmeiras ou de moto-taxi, já que o caminho não tem árvores e o sol da Bahia não perdoa. Lá, tem a cachoeira com um poção e várias piscininhas represadas. Descendo um pouco mais, há ainda outro poço e duas vias de escalada para quem curte.

Contudo, o top top do Capão, sem dúvida, é a Cachoeira da Fumaça, um espetáculo à parte, com 380 metros de altura. A Fumaça está dentro do Parque Nacional da Chapada Diamantina e é a segunda maior cachoeira do Brasil, que pode ser feita por baixo (3 dias) ou por cima (2h). A entrada para a trilha é na ACV-VC (Associação dos Condutores de Visitantes do Vale do Capão), que oferecem guias para grupos por R$ 100 para até quatro pessoas. A trilha leva cerca de uma hora de subida e mais uma hora de caminhada. Nosso trekking foi sem guia, mas é importante se informar sobre as bifurcações. Chegando lá em cima é só curtir e não se cansar de tirar fotos de deixar todos babando.

Ainda no Capão a Cachoeira da Purificação é uma boa pedida. É aconselhável pegar um moto-taxi ou uma carona até a entrada da trilha, pois fica distante da rua principal. Em 20 minutos de trilha chega-se a primeira queda, a cachoeira da Angélica, ponto bom para pegar energia para o restante da trilha, que leva aproximadamente 40 minutos. Uma dica importante para não se perder neste ponto é seguir sempre perto do rio. A trilha vai fazendo ziguezague, é preciso atravessar muitas vezes pelas pedras e se perceber que está se afastando, é porque está errado. Se subir muito você vai acabar pegando o caminho para o Vale do Pati, que também tem saída por este parque. Se ficar inseguro para fazer sozinho, procure conhecer as pessoas do seu camping ou hostel, sempre tem alguém procurando companhia. Na volta vale comer um pastel de palmito de jaca com caldo de cana na barraquinha ao lado (Dizem que tem gosto de frango, mas esse deixei para vocês me contarem)!

Onde comer:
Ninguém sai do Capão sem ir pelo menos um dia a Pizzaria Capão Grande, ela fica ao lado da igreja e não tem placa na entrada. No cardápio só tem dois sabores um doce e outro salgado, ambas vegetarianas e com ingredientes produzidos no próprio local. A massa é integral, bem leve e fininha, mas o diferencial mesmo é a pimenta feita no mel que eles produzem e vendem para quem quiser levar para casa. Gostamos tanto que trouxemos duas na mala. 😉

Além da pizzaria, outro lugar que ficamos apaixonados foi a Taberna, o local se especializou em bebidas, vende chopp artesanal, cervejas importadas e faz uns petiscos na cerveja. Aos finais de semana eles preparam um almoço especial com duas opções. Quando fomos comi um risoto na cachaça com carne seca, couve e banana da terra. Sério, poucas vezes comi tão bem.

Ibicoara, hora de ir pro Buracão!

Onde está o Wally? - Buracão

Um dos passeios mais caros das agências é a ida ao Buracão. A cachoeira é realmente única, localizada na cidade de Ibicoara, no sul da Chapada, trata-se de uma queda de 80 metros, em um canyon impressionante, que se chega nadando ou equilibrando-se pelas pedras. Distante 300 km de Lençóis, as agências chegam a cobrar R$300 por pessoa para ir e voltar no mesmo dia e R$600 para pernoitar na cidade. Os preços são abusivos e as alternativas que encontramos foram ou ir de carro e pernoitar em Ibicoara ou Mucugê, cidade próxima e um pouco mais aconchegante. Ou comprar passagem na rodoviária de Lençóis, pela empresa Emtram até entroncamento de Ibicoara (R$26) e torcer por uma carona até o centro da cidade. Se não quiser arriscar a carona dá para seguir no ônibus até a cidade de Barra da Estiva, onde tem transporte de volta para Ibicoara. Só que nessa esticada serão mais 20 km, então para não perder mais tempo na estrada, vale a pena perguntar no ônibus se alguém não está indo para Ibicoara.

No centro, há uma associação de guias onde saem passeios todos os dias para o Buracão. O bom é juntar-se com outros grupos para que o guia seja mais barato (Essa dica vale para toda a chapada), até porque neste parque só se pode entrar acompanhado de um guia cadastrado. Para casal costumam cobrar R$70 cada, mas em um grupo de quatro pessoas dá para pagar R$25 cada um. A trilha para chegar no Buracão é leve, com poucas subidas e vegetação aberta, então é bom levar bonés e não esquecer o protetor solar. Ah, e é claro água, muita água!

Além do Buracão, Ibicoara também tem outras cachoeiras incríveis como a Fumacinha (nível bem pesado de caminhada nas pedras 3h a 4h) e Licuri, uma queda quase tão alta quanto o Buracão, só que com menos água e um poço mais modesto. A trilha leva apenas 30 minutos e dá para fazer sem guia. O visual é bem bonito e mais reservado. Para chegar no início da trilha alugamos uma moto (R$40), o que valeu a pena!

Para economizar tempo de viagem decidimos voltar direto de Ibicoara para Salvador. O ônibus que faz o trajeto é da viação Águia Branca (R$82) e só sai aos domingos, a passagem só dá para comprar no dia com o motorista, ou com antecedência no guichê de Salvador. Esse percurso demorou um pouco mais, parou bastante e chega na rodoviária de Salvador às 4h da manhã, então não sei se foi a melhor escolha.

Onde ficar:
Ibicoara não é uma cidade turística e muito menos histórica, tem bem poucas opções para comer e as melhores pousadas são bem afastadas do centro. Mas se você como nós estiver sem carro é melhor ficar pelo centro, perto da associação para fazer os passeios. Ficamos na ~pousada~ Sete Montanhas, quartos simples (R$40), mas café da manhã caseiro bem gostoso e funcionários muito hospitaleiros.

Dica:
No site oficial da Chapada tem outras informações e um mapa, que nos ajudou bastante.
É isso, agora corram para fazer seu rolê na Chapada e me contem como foi!

2 Comment

  1. Muy interesante 😉 —obrigado—

  2. Muy interesante 😉 —obrigado—

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