Quem tem medo do Harlem?

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Berço do movimento negro em Nova York, palco de grandes artistas do soul e vizinho da mais antiga universidade do estado. O Harlem tem muito a dizer, basta saber se você quer escutar.

Quando estava procurando apartamento em Nova York, minha maior preocupação era ficar em Manhattan, pois não conhecia a cidade e não queria passar horas no metrô cortando os bairros. O Harlem foi uma opção muito mais acessível que o Brooklyn, por exemplo, com aluguéis mais baratos e estações bem próximas ao apartamento.

O bairro, em geral, inclui o East Harlem com o parque e pista de corrida com vista para o East River, o Central Park North, na altura da 100th com a 5ª Avenida – uma espécie de refúgio mais calmo do agitado ponto turístico – e bons restaurantes na 1ª Avenida. Não deixe de tomar um brunch no Prime One 16 e curtir o happy hour no Harley’s Smokeshack & BBQ.

Já o lado West acumula o verdadeiro agito à noite e boa parte da história local. Atravessando o Morningside Park, pela 116th, aconselho um passeio pela Columbia University. O campus é lindo e cheio de história. A universidade, fundada em uma igreja em 1754,  abrigou a primeira escola de medicina dos Estados Unidos e graduou personalidades como Barack Obama e o ex-presidente Theodore Roosevelt. Atualmente é a número 13 das “top destinations“, pelo ranking da Times Higher Education.

Entrar lá, no entanto, não é fácil: em 2013, a Columbia recebeu mais de 26.000 candidaturas para o college, mas só admitiu 7% dos interessados. A instituição ainda oferece um programa de inglês gratuito para estrangeiros, que você fica sabendo aqui nesse post.

Na 125th Street, o Apollo Theater resiste. O teatro foi um dos mais importantes espaços de difusão da cultura afro-americana, propagando nomes como Ella Fitzgerald, James Brown, Jimi Hendrix, Billie Holiday e Jackson 5. Inaugurado em 1914, a casa fechou e reabriu diversas vezes, sendo protagonista do movimento conhecido como: Harlem Renaissance. Em 1983, o Apollo foi considerado um marco da cidade e hoje é uma fundação sem fins lucrativos, que mantém concertos, peças de teatro e programas para a comunidade. A famosa e divertida noite de calouros, onde o público pode aplaudir ou vaiar os candidatos, acontece todas às quartas-feiras às 19h30 e é um programão para todo mundo.

Mais música

Shrine, Harlem, New York City

Subindo um pouco mais, na Adam Clayton Powell Junior Boulevard, entre a 133th e a 134th street, fica um dos meus lugares favoritos em Nova Iorque, o Shrine – World Music Venue. Um pequeno bar underground, com capas de LPs e cartazes cobrindo a fachada e todo espaço interno. Ele abre todos os dias até às quatro da manhã com programação gratuita, super variada e ótimos drinks. As apresentações sempre irreverentes vão de artistas de jazz, ao soul, hip hop, deep, reggae e free style. Às vezes tudo isso em uma noite só. A primeira vez que fui fiquei em êxtase e sempre que voltei não me arrependi. A programação da semana fica disponível no site.

Outra pedida muito boa é o quadrilátero da 116th com a Frederick Douglass Blvd. Em uma esquina está o árabe Silvana, que à primeira vista parece apenas um restaurante aconchegante, mas uma pequena escadinha à esquerda leva ao subsolo, onde bandas embalam os clientes todos os dias até às 4h. O Silvana não é tão dançante quanto o Shrine, mas tem um clima ótimo, com sofas, mesinhas e narguile. Quando for não deixe de pedir a porção de falafel no bar ou o sanduíche de berinjela. Tudo é uma delícia. Acredito que foram os melhores falafels que eu comi em Nova Iorque.

Logo em frente, uma enorme arena vermelha capta a atenção de quem passa. É o Harlem Tavern, que também tem um calendário de shows ao vivo, mas são os jogos de basquete que realmente lotam o lugar. Se você quiser assistir uma partida no telão é melhor chegar cedo e segurar sua mesa. A casa tem lotação máxima e quando fecha não adianta nem negociar com os enormes seguranças, só mesmo esperando. O cardápio é ótimo e minha sugestão são as quesadillas de frango, variadas, deliciosas e ótimas para dividir.

Gentrificação

O bairro, que sempre foi de tradição negra, vem ficando cada vez mais hispânico, abrigando milhares de dominicanos, mexicanos e porto-riquenhos. O espanhol, às vezes, parece ser a língua oficial. Turistas, no entanto, ainda são poucos. O mais comum é vê-los passando nos pomposos BigBus, grandes, vermelhos e bem distantes do chão.

Em maio deste ano, o jornal The Guardian publicou um artigo abordando o “branqueamento” que o bairro vem sofrendo, principalmente na parte central por conta do aumento dos preços de aluguel em Manhattan e os novos empreendimentos de luxo. A jornalista Rose Hackman analisou o processo de gentrificação do bairro com as novas comodidades, mas também a migração da população. E a teoria, realmente, fica bem clara ao observar o bairro. Ao governo americano, agora, cabe preservar a cultura negra não somente nos palcos do Apollo, mas também no direito à cidade.

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